sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

SAUDADE DA FOSSA


Tem coisas na vida d’agente
Difíceis de serem esquecidas
Das palmatórias que recebia contente
Das professoras queridas.

De joelho no milho seco
Como castigo de qualquer bobagem
No escuro conversando com o esqueleto
Repreendido por libertinagem.

Ó professoras desgraçadas
De vós tenho tanta saudade
De como não riam de minhas palhaçadas
E como eu gostava de tuas maldades.

E quando saía da escola
Encontrava-me com um menino brigão
Que grudava minhas axilas com cola
E me dava um bom safanão.

Que saudade da humilhação
Que aquele degradado me fazia
Dele lembro-me com emoção
Quando vejo um morrer de embolia.

E ao chegar em meu lar
Aí a emoção é dobrada.
Queria a fome matar
E não tinha nada, nada, nada!

É maravilhoso sentir fome
Sentir o intestino retorcer
Ouvir as lobrigas brigando
Procurando o que comer.

Mas para quebrar a rotina
Aparecia um angu pra comer
Feito com farinha vencida
Que quem comeu vi morrer.

Para quê creme dental
Depois da refeição?
Mastigava folhas de laranjeiras
Amargas que só o cão.

Saía com meus dentes verdes
Rindo feliz ia andando
Com a boca fedida (ou cheirosa?)
Assim ia me enganando.

De longe alguns riam do meu sorriso
De perto choravam com o fedor
Só quem passou descreve isso
Sentindo no peito o calor.

Saudade da ditadura
Aquilo sim que era ordem
Soldado mostrando postura.
Impondo quem é que pode?

Lembro com tanta saudade
De ver meu pai apanhar
De dois homens esquisitos
Acusando-o de vadiar.

As coisas eram tão bem feitas
Que do meu pai não tenho pista
Por ter lido um livro vermelho
Disseram que era comunista.

Isso sim que era ordem
Batiam só em supor.
Para evitar a desordem
Tratavam saber com terror.

Militares maravilhosos
Infelizmente tiveram que sair
Os que sobraram tomaram posse
Prenunciando o melhor por vir.

Foi uma época de mágicas.
Vi o Brasil afundando
Tantas moedas fracas
E planos fracassando.
O melhor de todos eles
Foi o tal de URV
Sempre tinha mais dinheiro
Mesmo não podendo viver.

Foi tanta putaria
Que teve nos anos oitenta
Sexo liberado para todos
Do jeito que hoje nem se tenta

Lembro da gonorréia
Que peguei em um puteiro
Quase perco pênis e güela
De gritar o dia inteir.

Tive foi muita sorte
Pois ainda vou vivendo
Pior foram meus vinte amigos
Que de AIDS foram morrendo.

Hoje sou bem estabilizado
Vivo muito sem graça
Viajo para onde quero
Não tenho nenhuma desgraça.

Sou palestrante mundial
Ganho milhões todo dia.
Vivo de forma legal
Naquela monotonia.

Mais um dia em Berlim
Em uma fossa eu caí.
Lembrei do banheiro de minha antiga casa
Chorei da saudade que senti.

Beetholven Cunha
10 de janeiro de 2009

Um comentário:

  1. Transformar infância em poesia
    lembrar o passado com alegria
    da primeira fudida com uma vadia
    saudades das tolices que eu fazia.

    Parabéns pelo poema Maestro

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